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6 de junho de 2009
Celebração do Centenário da Canonização de São Clemente Hofbauer, C.Ss.R.
Editorial:
Temos o prazer de enviar a vocês esta edição especial de SCALA, que conta como foram as celebrações do Centenário da canonização de São Clemente Maria Hofbauer em Viena, Áustria.
Com exceção dos Capítulos Gerais e dos Congressos de Jovens, não é freqüente esse tipo de reunião internacional, mundial, de Redentoristas. Viena, na Áustria, Tasswitz na República Tcheca e Cracóvia na Polônia foram os cenários desse encontro, de 18 a 22 de maio. |
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Mais de 200 Redentoristas e leigos convidados, vindos até de longe, como do Paraguai e dos Estados Unidos, bem como uma numerosa representação de toda a Europa do Norte e do Leste reuniram-se primeiro em Viena durante três dias, nos quais houve liturgias e celebrações maravilhosas. |
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As fotos das atividades desses dias ilustram esta edição especial de SCALA, na qual você encontrará três apresentações que o farão apreciar o significado pastoral e comunitário das celebrações, como também o orgulho dos Redentoristas por serem confrades de São Clemente.
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Na primeira noite em Viena, depois de uma liturgia na igreja Marienkirche em Viena-Hernals, presidida pelo Pe. Lorenz Voith, provincial de Viena, ladeado pelo Padre Geral e pelo Conselheiro Geral, Pe. Jacek Dembek, reunimo-nos no salão paroquial São Clemente.
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Foi-nos apresentada uma peça que contava em oito cenas a vida de São Clemente, escrita no século passado por Alois Mair-Weinberger, sacerdote austríaco, e encenada por atores de nossa paróquia Marienkirche. Como se podia perceber, os artistas e a equipe ensaiaram durante muito tempo para nos oferecer um espetáculo de excelente divertimento e de informação sobre a vida do Santo. A noitada terminou com um churrasco vienense regado com a boa cerveja local Ottakringer!
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Na segunda noite, a liturgia foi celebrada novamente em Marienkirche e foi celebrante principal e pregador o Padre Geral. Trechos da sua homilia encontram-se nesta edição. Após a missa foi oferecido um jantar de gala no salão paroquial. Foi neste jantar que o Pe. Hans Shermann leu a sua “Carta a São Clemente,” que também reproduzimos abaixo. Na mesma ocasião, o Dr. Otto Weiss, perito em história da Congregação, recebeu o título de Oblato por suas pesquisas e sua contribuição para a história redentorista.
Na manhã do terceiro dia nos reunimos na bonita igreja da Abadia Escocesa de Viena. O Arcebispo Peter Stephan Zurbriggen, Núncio Apostólico na Áustria, foi o convidado especial. Houve exibições especialmente preparadas, como um quarteto de cordas que tocou várias peças clássicas, e o coral infantil do Klemens Maria Hofbauer-Gymnasium da cidade de Katzelsdorf an der Leitha fez a assembléia derramar lágrimas ao executar “A Rosa” após a excelente apresentação do Dr. Otto Weiss que transcrevemos abaixo. Foi durante essa celebração que as Províncias de Estrasburgo e Lyon-Paris deram de presente à Província de Viena uma casula usada por São Clemente, e por elas conservada. Com certeza vocês se lembram de que São Clemente teve problemas com as autoridades porque carregou consigo paramentos em suas viagens e chegou a ser suspeitado de roubo.
Na parte da tarde, o dia foi coroado com uma procissão pelas ruas de Viena, saindo da Platz Am Hof rumo à igreja Maria am Gestade. Aí mais de 200 Redentoristas e uma igreja lotada renderam homenagem ao túmulo de Clemente e participaram de uma concelebração eucarística presidida pelo Bispo Auxiliar de Viena, Stephan Turnovszky, representando o Cardeal Christoff Schönborn, Arcebispo de Viena. Foi cantada a Missa da Coroação, composta por Wolfgang Amadeus Mozart. Depois da comunhão, os provinciais presentes, representando as províncias cuja origem remonta a São Clemente, prestaram homenagem a nosso amado Santo, e o anfitrião Pe. Voith ofereceu dons a muitos dos organizadores e participantes. A noite foi encerrada com um concerto fora da igreja e com um jantar festivo servido em três locais diferentes para acomodar a multidão
No quarto dia, os peregrinos seguiram de ônibus para Tasswitz, na República Tcheca, terra natal de Clemente, onde foi feita uma breve parada para uma Missa e depois continuaram a viagem até Cracóvia, onde visitaram os lugares
de São Clemente e participaram da Missa de encerramento, presidida pelo Cardeal Arcebispo de Cracóvia, Stanislaw Dziwisz
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Muito se poderia dizer sobre a gentileza e a hospitalidade que os confrades vienenses e as outras Províncias da Europa Norte ofereceram a seus convidados. Não há palavras suficientes para exprimir a gratidão da Congregação por seus esforços em tornar esse Centenário da Canonização de São Clemente um evento memorável e inesquecível. Para todos os participantes, foi um testemunho do dinamismo missionário da Congregação e um novo incentivo para difundir a Copiosa Redenção no mundo inteiro.
Graça e Redenção para todos!
Gary Ziuraitis, C.Ss.R. |
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Viena Áustria
Centenário da Canonização de São Clemente
Dr. Otto Weiss
Eu gostaria de levar vocês a um passeio através do tempo.
Começamos em Viena 200 anos atrás, ou seja no dia 20 de maio de 1809. Nuvens baixas estão pairando sobre a cidade e o Danúbio está transbordando. O país está em guerra. Já faz uma semana que Napoleão entrou na cidade. Na noite de 11 para 12 de maio começou um bombardeio que atingiu casas no centro da cidade. Napoleão instalou-se no palácio de Schönbrunn. Suas tropas, num total de 90 mil homens, acamparam ao norte da cidade, na margem direita do Danúbio.
E exatamente 200 anos atrás, Napoleão começou a construir uma ponte em Kaiserebersdorf sobre o braço principal do Danúbio para Lobau, e daí para a área entre Aspern e Essling. É difícil construir pontes ali porque são constantemente batidas pelas correntezas. No mesmo dia, as tropas da Áustria impediram alguns regimentos do exército francês de atravessar o rio em Jedlesee, alguns quilômetros a montante do rio. Nos dias 21 e 22 de maio travou-se a batalha de Aspern. Do lado austríaco os mortos foram 24 mil, e do lado francês 30 mil. Napoleão retirou-se de Viena derrotado. No entanto a celebrada vitória de Aspern será seguida, nos dias 5 e 6 de julho de 1809, da sangrenta derrota de Wagram. Viena continuará ocupada até outubro do mesmo ano. As igrejas vienenses, inclusive a de Maria am Gestade, serão usadas como estrebarias para os cavalos. Cidadãos de Viena vão enfrentar oficiais franceses e serão executados. A vida na cidade está totalmente confusa.
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Expulso de Varsóvia por Napoleão, o Padre Clemente Hofbauer, então com 56 anos, queria apenas passar um breve tempo na capital do reino para resolver algumas questões financeiras antes de partir, ou para um convento redentorista na Itália, ou para junto de seus confrades na Suíça. A obra de sua vida estava em ruínas ao redor dele: a florescente fundação de Varsóvia, seus muito amados orfanatos e escolas, tudo foi fechado por ordem de Napoleão. Mas ele não tinha intenção de desistir. Queria começar de novo, se não na Europa, no Canadá. Sempre sonhara isto.
As coisas se passaram diversamente. Mais uma vez foi apanhado nas malhas da polícia e da burocracia. Porque quis levar consigo paramentos de Varsóvia, suspeitaram que fosse um ladrão de igreja. Teve de permanecer em Viena até que o caso fosse esclarecido, mas então Napoleão estava às portas da cidade. Quando ela foi tomada, aconteceu que Hofbauer se achava na casa de uma família amiga no centro. Tinha se mudado do seu apartamento nos subúrbios de Alser ao se aproximar o exército francês. Mas um tiro atingiu lá a casa.
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Depois de 20 de maio de 1809, passada a batalha de Aspern, Hofbauer decidiu ficar. Os soldados feridos precisavam de sua ajuda. Os amigos lhe pediram que não deixasse a cidade. Conseguiram para ele um cargo na igreja nacional italiana, a igreja dos Minoritas, e um lugar próximo onde morar. A igreja tinha atraído o povo desde quando o compositor Antonio Salieri dirigia o coro e a orquestra. Mas poucos vienenses sabiam que ela era também o centro de uma organização católica leiga extremamente ativa, que se denominava Amicizia Cristiana – Amizade Cristã. Hofbauer tinha sido membro dessa comunidade durante certo tempo. Agora, como sacerdote, ele poderia usar e aprimorar a estrutura deles já bem montada. Tornou-se seu diretor espiritual em Viena. Com seu auxílio, ele fez contato com intelectuais católicos de proa, como o filósofo Friedrich Schlegel e Adam Müller, e começou, como dirá mais tarde Hermann Bahr, a desafiar a cidade por meio da “impressionante verdade do seu caráter. Nele não havia nenhum brilho externo,” dizia Bahr, “não tinha arte persuasiva, mas ninguém conseguia resistir à força interior da sua presença.” |
Durante onze anos foi possível encontrá-lo pelas ruas da cidade. Foram anos movimentados. O imperador retornou. Napoleão foi finalmente vencido em Waterloo. Viena tornou-se o centro da Europa por alguns anos. Porém, enquanto o Congresso estava reunido, discutindo, regateando e dançando, e estava para mudar o mapa da Europa, o Padre Hofbauer estava mudando os corações das pessoas em Viena, embora as autoridades continuassem a vigiá-lo e o proibissem de pregar. Certamente o Congresso não o deixou indiferente. Julie Zichy, a mulher mais bela do Congresso e uma das mais cortejadas por certo número de nobres duques, era sua penitente, e até o príncipe da coroa da Baviera, o futuro rei Luís I, pedia-lhe conselho. Ele dava tudo o que podia, mesmo aos grandes homens que estavam deliberando sobre a história do mundo.
Todavia, seu coração pertencia especialmente aos pobres. Sebastian Brunner escreve: “Os pobres eram seus amigos. Ele não dizia isto com palavras ocas, mas dava testemunho disto com a vida toda.” Confortava os pobres nas favelas dos subúrbios, mas não com uma vida melhor no além. Diariamente carregava panelas de sopa e outros alimentos – bem ocultos debaixo de seu velho manto – para as pessoas que moravam mais longe. E não obstante, aquele mesmo homem podia fazer companhia a gente de elevada educação, professores da Universidade de Viena e respeitáveis representantes da sociedade local, e mais ainda, ele tornou-se para eles conselheiro e guia nas tempestades da vida.
Quando morreu, tornou-se claro o que exatamente ele significava para aquelas pessoas. Dorothea Schlegel, mulher excepcional, à qual Carla Stern dedicou um livro notável anos atrás, expressou isto nas seguintes palavras: “O que eu perdi, o que nós todos perdemos, o que eu procurei durante toda a vida, é o nosso caro pai espiritual. Não posso falar sobre isto, todo o meu coração se parte, se eu falo da alma que sou, tendo que ficar sem ele nessa vida aliás tão sem alegria.”
Hermann Bahr escreve: “Com este homem, o próprio Espírito apareceu na cidade desatenta. As autoridades não podiam estar preparadas para isto. Ele não aceitava proibição alguma, e não se pode prender uma pessoa com parágrafos cuja eficácia está na verdade do seu próprio caráter. Soltaram um suspiro de alívio quando ele morreu. Na época, não podiam saber que ele tinha começado a viver por todas as outras partes do país. Entrementes, os discípulos de Hofbauer calmamente tomaram e seguraram os corações das pessoas e a semente que ele plantou floresceu.”
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Demos um salto no tempo, de 1809 para 1909. a data é de novo 20 de maio. A basílica de São Pedro em Roma está cheia ao máximo. Entre a multidão, os muitos austríacos e vienenses são claramente reconhecíveis. O clero caminha pela igreja tendo à frente o painel com a figura do novo santo, atrás do qual se vê perfeitamente no fundo o estandarte da catedral de Santo Estevão de Viena. Os vienenses têm todo o direito de se orgulhar. Passaram-se 424 anos desde que fora canonizado o último santo austríaco, a saber, o patrono de seu país, o duque Leopoldo III de Babenberg, e 163 anos desde que fora canonizado o último santo de língua alemã, o Capuchinho Fidélis de Sigmaringen..
O novo santo, como escreveram os jornais da época, é um santo moderno. Conforme o Jesuíta Moritz Meschler, a era moderna é caracterizada por traços belos, louváveis e extraordinários: “Há a imensidão do trabalho em todas as áreas da vida, há a reputação da palavra escrita e o poder da imprensa, há a seriedade para resolver a questão social, há a força da caridade.” Hofbauer estava consciente disto instintivamente e transmitiu-o como seu legado aos católicos austríacos e alemães como uma missão que prossegue até o dia de hoje. |
Mesmo Martin Spahn, católico reformado, acredita que o Catolicismo alemão está no caminho moderno da “forma simples de Hofbauer”, embora ele coloque a ênfase de um modo pouco diferente. Como Hofbauer, os católicos na Áustria e na Alemanha desde o século XIX têm dado toda atenção à firmeza da confissão religiosa e valorizado toda a veneração à cabeça da igreja: “simples na fé, atenciosos na devoção, tolerantes, compreensivos e respeitosos para com os outros de crença diferente.” E Spahn deseja “que a intercessão de Hofbauer implore para os católicos alemães a graça de caminhar nas estradas que ele trilhou – com a mesma confiança em Deus, no mesmo Espírito de fé inabalável, amor cristão e leal devoção ao dever.
Voltemos agora ao presente. São passados 200 anos desde o assalto de Viena pelas tropas napoleônicas e a batalha de Aspern, que Hofbauer viveu de perto, 100 anos desde a sua canonização, e podemos avaliar o que se passou. Tanta coisa mudou desde então. A cidade de Viena cresceu muitas vezes. Aspern e Essling agora fazem parte do 23o distrito da cidade. As carruagens ainda circulam pela cidade, mas somente para impressionar os turistas com a glória dos tempos passados. Os verdadeiros meios de transporte são o carro e o avião. Vivemos numa nova era digital, com suas realidades virtuais. Não obstante, muita coisa ficou inalterada: as pessoas à margem da sociedade vivendo na pobreza e na doença, que ficariam felizes se um Padre Clemente Hofbauer aparecesse no meio deles com seu manto largo e suas panelas de sopa, sem perguntar se são cristãos ou católicos. O que também ficou são as perguntas que o povo ainda faz sobre o sentido da vida, as perguntas daqueles que anseiam por ouvir e responder, como a que Hofbauer costumava fazer “pela verdade do seu próprio caráter.”
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| Penso que Clemente é ainda um santo moderno, e de fato talvez hoje mais do que nunca antes. O legado sobre o qual falou Martin Spahn é ainda relevante. Nós o respeitamos hoje. Esta é uma boa coisa a fazer. Porém, é mais importante aprendermos a ver com seus olhos e com seu coração e estar lá como ele para as pessoas à margem da sociedade, não com palavras vazias, mas com os “atos de nossas vidas”. E algo mais que devemos aprender dele é não desanimar nas horas difíceis porque sabemos – como ele sabia – que é Deus quem dirige tudo. |
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Viena, Áustria
Centenário da Canonização de São Clemente Hofbauer
Carta a São Clemente
Hans Schermann, C.Ss.R.
Nesses próximos dias, muitas coisas vão ser faladas a respeito de Clemente Hofbauer. Eu gostaria de escolher uma perspectiva diferente, e não falar “sobre” ele, mas falar “com” ele pessoalmente. Considero ponto pacífico que a pessoa que estamos celebrando está de fato conosco, aqui e agora, em todo caso, e pode nos ver e escutar. Então vou falar com ele diretamente.
Reverendíssimo Vigário Geral Padre Clemente Maria Hofbauer,
É uma honra para mim poder falar hoje com o sr. aqui em Viena umas poucas palavras, mas muito calorosas. Realmente, não sou a pessoa adequada para isto. Sou um forasteiro, um recém-chegado. Mas afinal, o sr. era assim também, por isso estamos de fato no mesmo barco! E cá entre nós, o que seria Viena sem seus imigrantes, os recém-chegados? Eu apenas quero agradecer o sr. com toda simplicidade, por sua vida e seu trabalho em nossa cidade. O que o sr. fez no resto da Europa, tenho certeza que outra pessoa vai celebrar no devido tempo e lugar. |
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Sem dúvida, o sr. morou aqui em Viena quando jovem, trabalhou para o Mestre Weyrig, o padeiro da rua Johanne. Depois estudou na universidade aqui em Viena. É verdade que não achamos seu nome na lista dos matriculados da Universidade, mas há outros motivos para isto.
É um fato bem conhecido que o sr. não concordava com tudo quanto era ensinado na Universidade. Isto só pode depor em seu favor e mostra como o sr. era de fato um bom estudante. Muitos anos depois, o sr. expressou numa carta a sua opinião sobre os professores da Universidade. Pode ser que o sr. não se lembre, mas no dia 19 de agosto de 1800 – quando morava em Varsóvia e não mais aqui – o sr. escreveu ao Padre Geral Blasucci o seguinte: “Nunca vi o clero ser tratado com tanta honra como em Viena…. Embora por mais de 30 anos, já no reinado de Maria Teresa, muitas Cadeiras da Universidade fossem ocupadas por professores hostis ao Cristianismo e Viena quase pudesse ser chamada de ninho no qual foram criados muitos inimigos da fé cristã, especialmente no tempo do Imperador José. Não obstante, nunca vi tanta piedade e devoção como lá.”
Essas últimas palavras fazem todo católico de Viena estufar o peito de orgulho, e eu lhe peço licença para rir um pouco desse elogio dos vienenses. Tenho uma leve suspeita de que o sr. está fazendo o mesmo.
Então o sr. dá as costas a Viena: foi para Roma e lá entra na Congregação redentorista. Mal passa um ano, e o sr está aqui de novo em 1786 com uma tarefa importante: fundar uma casa da Congregação em Viena; uma empresa sem futuro no clima político da época. O sr. não sabia disso? Sua chegada a Viena com seus amigos não passou despercebida naquele ano de 1786. Marcus Antonius Wittola escreveu sobre ela no boletim da igreja de Viena de um modo extremamente depreciativo: os Jesuítas estão chegando! O sr. escreveu-lhe de Varsóvia uma longa carta esclarecendo os fatos. E ele publicou a carta junto com seus cínicos comentários no jornal da igreja. Esclarecer o esclarecido é simplesmente impossível.
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Não sendo possível a fundação de um convento em Viena, o sr. foi para outras partes da Europa e lá fez grandes coisas, sobretudo em Varsóvia, na Suíça e no sul da Alemanha. Mas passava muitas vezes por Viena durante esses anos e fez muitos bons amigos aqui – e alguns bons inimigos também!
E Viena foi seu refúgio quando o sr. e seus irmãos foram expulsos de Varsóvia em 1808. A nossa cidade reservou-lhe então uma boa recepção. O sr. chegou aqui depois de ter sido solto da prisão de Küstrin, profundamente entristecido por causa da destruição da obra de sua vida em Varsóvia, humilhado, perplexo. E a polícia vienense o prendeu mais uma vez, simplesmente por precaução – entendeu? – porque o sr. trazia algumas roupas em sua bagagem e podia ser confundido com um ladrão de igreja. A situação se clareou poucos dias depois e foi-lhe devolvida a liberdade. Quero pedir-lhe desculpa pelo engano da polícia!
Contudo, eu gostaria de exprimir-lhe meu agradecimento e meu apreço por sua gentileza em manter atuantes em tempo integral os oficiais civis de alto escalão e os policiais. Seguindo seus passos em suas reuniões com estudantes e professores da Universidade, os cavalheiros da polícia secreta tiveram a bondade de mostrar grande interesse por seus sermões. Com efeito, devemos a eles alguns detalhes interessantes sobre os seus sermões: “Hofbauer tem um círculo de amizades alarmante,” um deles escreveu em sua ficha. E diziam que o sr. pregava “dogmaticamente” – o sr. sabe o que é pregar “dogmaticamente”? Com certeza nem o agente da Gestapo sabia. E sua fama era de pregar de modo extremamente vulgar, por exemplo, consta que o sr. disse uma vez: “Hoje quero fazer uma pregação tão simples que qualquer criança e até o mais ignorante de vocês vai entender.” Muito obrigado por pensar nos mais ignorantes dentre nós!
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O pessoal da Gestapo tinha muito mais a dizer sobre o sr., por exemplo, que o sr. era muito respeitado pelo arcebispo de Viena, Sigismund Duke Hohenwart, e que o sr. jantava com ele quase toda semana. Eu me pergunto se devemos acreditar em tudo que o cavalheiro da polícia escreveu sobre o sr. sem uma grande “pitada de sal”.
A propósito, o sr. não apenas manteve ocupadas as autoridades e a polícia de Viena, mas de toda a monarquia austro-húngara e mais além. Possuímos documentos sobre o sr. – alguns a favor, outros contra – nos arquivos de metade da Europa: em Varsóvia e Paris, em Dresden e Lemberg, em Berlin e Roma, em Cracóvia e em Fribugo, em Viena, naturalmente, e também em outras cidades. Qual outro santo manteve tantas autoridades e governos ao seu encalço – inclusive Napoleão! É impressionante como o sr. conseguiu fazer tudo isto!
| Mas voltemos a Viena. Para mim é muito importante poder agradecer-lhe pela sua imensa missão pastoral em nossa cidade. Quando o sr. chegou aqui em 1808 como refugiado, não se deixou desanimar, mas recomeçou com energia e entusiasmo incríveis, embora não fosse de modo algum uma pessoa jovem, com seus quase 60 anos. Seu cargo era confessor das irmãs Ursulinas – esta era a sua tarefa oficial. Mas além disso o sr. fez muitas outras coisas também. Conseguiu atrair jovens, estudantes da Universidade, e professores igualmente. Fortaleceu a fé deles e ajudou-os a ver o Evangelho com novos olhos. Não poucos deles entraram para a nossa Congregação mais tarde. O sr. fez muito para os pobres de Viena: para os mendigos e os imigrantes que viviam no abandono nos subúrbios de Viena, como aqui, por exemplo, em Hernals, e para os artistas sem dinheiro, os estudantes e os desesperados de toda espécie. Coisas surpreendentes nos foram contadas sobre o sr. a este respeito.
E entretanto o sr. freqüentava os melhores ambientes de nossa cidade, entrava e saía das casas de pessoas como Friedrich Schlegel, o grande romântico alemão, e o famoso Conde Franz von Szechenyi. Ficamos admirados de ver como tudo isso foi possível para o sr., menino da roça e aprendiz de padeiro em Tasswitz, que não tinha aprendido nada, como o sr. mesmo disse uma vez. Certo, nesse meio tempo o sr. tinha aprendido algumas coisas e sabia ainda mais por sua vasta experiência. Mas ainda permanece extraordinário o fato de o sr. ser um conselheiro muito procurado nesses ambientes! |
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Quero agradecer-lhe pelo grande esforço que fez para que a sua Congregação – a nossa – tivesse uma casa aqui em Viena. O sr. nunca desistiu dessa idéia. Até seus bons amigos menearam a cabeça diante do seu excessivo zelo – na opinião deles. Seu admirador e excêntrico amigo Zacharias Werner disse mais de uma vez: “Padre Hofbauer seria um santo perfeito se ele não pensasse quase exclusivamente – seja o que for que está fazendo – na fundação e no aumento de suas casas missionárias.” Hoje em dia não conseguimos imaginar quantas reuniões foram necessárias para obter o reconhecimento dos Redentoristas em Viena, a diplomacia que precisou e quanta manobra foi inevitável.
O sr. fechou os olhos pela última vez antes que suas tentativas para alcançar o reconhecimento dos Redentoristas na Áustria chegassem a bom termo. Mas abriu o caminho para que a Congregação fincasse o pé em nossa cidade e daqui pudesse se espalhar para mais de meio mundo. Esta é e permanece uma página de glória em sua vida.
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Foi em Viena também que o sr. cerrou os olhos e morreu, a 15 de março de 1820. Não lhe posso agradecer por isso, porque morremos em qualquer lugar que a morte nos apanhe. Mas o sr. foi salvo por milagre. Podia muito bem não ter morrido em Viena e só Deus sabe onde teria morrido
O problema foi que em 1818 lhe causaram o extremo embaraço de vasculhar sua casa e como resultado as autoridades descobriram que o sr. pertencia a uma ordem religiosa que também existia fora do reino austríaco, algo que era considerado ultrajante e intolerável na época, por razões de segurança nacional. Foi-lhe deixada a escolha de sair da Congregação ou sair de Viena. O sr. respondeu ao chefe da comissão investigadora: “Se é este o caso, então saio de Viena!” Meus parabéns, Padre Hofbauer! Foi somente a mais alta intervenção, do Papa e também do Imperador que o impediu de morrer fora daqui. Que bênção! Não para o sr., imagino, mas para Viena.
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Reverendíssimo Vigário Geral Padre Clemente Maria Hofbauer! O sr. foi canonizado cem anos atrás. E passados poucos anos, no dia 14 de Janeiro de 1914, foi declarado padroeiro da cidade de Viena. Desde então, tantas coisas terríveis têm acontecido em nosso país, em nossa Europa, em nosso mundo, como nunca antes se viram. Entramos em desespero e não podemos deixar de perguntar quem afinal governa a história do mundo, o nosso Cristo Jesus, que chamamos de Senhor do mundo e da história, ou o seu arqui-inimigo.
Não temos certeza de que o mesmo não poderá acontecer no futuro. O sr. compreende então que ter sido nomeado patrono da cidade de Viena não é apenas um título honorífico para o sr.. Entendemos sua nomeação como uma missão contínua para o sr., a missão de ser responsável por nós e por nossa cidade |
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E gostaríamos de lhe pedir, com toda amizade, mas com muita urgência também, para o sr. cumprir sua missão. Não vai esquecer sua cidade de Viena, vai?
Era isto que eu queria lhe dizer. Espero que o sr. tome minhas palavras desajeitadas do jeito que eu as sinto: como expressão de admiração e do mais profundo respeito pelo sr., como sinal de gratidão e estima, e como prova de nossa confiança no sr. para o nosso futuro.
Meus estimados convidados, essas eram as coisas que eu queria falar com nosso Padre Clemente Maria Hofbauer, aqui presente e muito celebrado.
Viena, Áustria
Marienkirche, Viena-Hernals
Trecho da Homilia
Joseph W. Tobin, C.Ss.R.
Meus caros confrades, caros irmãos e irmãs em Cristo:
É uma felicidade para mim trazer-lhes uma breve reflexão nesta Celebração Eucarística que comemora o centenário da canonização de São Clemente Maria Hofbauer...
...Recordar a canonização de um santo é um convite a cada um de nós a pensar sobre a possibilidade da santidade. O que Jesus quer dizer quando encoraja seus discípulos a ser santos, até “perfeitos…como o vosso Pai celeste é perfeito” (Mt. 5, 48)? A vida de São Clemente pode nos falar hoje sobre o que significa a santidade, ou devemos considerá-lo como uma obra de arte a ser admirada mas não imitada, já que o mundo dele era tão diferente do nosso?
...Humanamente falando, todos os seus esforços por difundir sua amada Congregação falharam. O grande centro pastoral fundado em São Beno em Varsóvia foi varrido do mapa pela Grande Armée de Napoleão. Tantos de seus projetos e iniciativas pastorais em Viena foram frustrados pela burocracia imperial e pelas maquinações dos poderosos. Porém, mesmo quando idoso, Clemente continuou a sonhar, a propor, a convidar. Pelo fim da sua vida, ele escreveu que não podia recusar trabalhos novos e cansativos, não obstante sua avançada idade. |
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...Não foi um ingênuo otimismo ou a negação da realidade que ajudou Clemente a perseverar. Deus era a origem da sua missão e num sentido verdadeiro, seu abonador. Sem esquecer a urgência da sua missão, confiou que os frutos reais viriam depois. Um missionário planta, outro colhe, mas é Deus que dá o crescimento, o mesmo Deus “que tanto amou o mundo”. Não obstante o manifesto fracasso de grande parte de sua obra, bem podemos imaginar São Clemente antecipando a oração da noite atribuída ao Papa João XXIII: “Senhor querido, a Igreja é sua. Eu vou dormir!” Como ensina Bento XVI: “Aquele que tem esperança, vive de modo diferente; aquele que espera, recebeu o dom da vida nova” (Spes Salvi, 2).
Enquanto continuamos essa Eucaristia, demos graças pelo dom de São Clemente Maria Hofbauer. Ele nos mostra que a santidade é um dom e uma tarefa para cada um. Sua vida é uma lição de esperança, mesmo diante do fracasso manifesto. Ele desafia cada um de nós, especialmente seus confrades, a não nos envergonhar do Evangelho, mas a pregá-lo de maneiras novas, já que ele é “a força de Deus para a salvação de todo aquele que crê” (Rm 1, 16). |

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